LENDAS DE SALINÓPOLIS – TROCADINHO, O ENCANTADO DO ATALAIA


20161206104824Segundo a lenda, há muitos anos havia certa mulher que morava na praia do Farol Velho. Ela tinha um filho de dois anos que se chamava Manoel Torquato, mas como a própria não sabia pronunciar corretamente o sobrenome do seu filho, chamava-o então por “Trocatinho”. Certo dia, ela saiu de casa e deixou Trocatinho deitado em uma rede, quando retornou não o encontrou mais; desesperada, pensou que a criança tivesse morrido na praia. Passado alguns dias, uma certa noite ela teve um sonho. No sonho surgiu uma moça muito bonita e dizia que seu filho tinha sido levado pelos encantados do fundo do mar e que nunca mais iria vê-lo de volta. De fato aconteceu. Ela nunca mais teve contato com seu filho e logo morreu de tristeza. Iniciava-se, assim, a lenda do rei Trocatinho, o célebre encantado do Atalaia que se transformava em animais como boi, cachorro e, principalmente, em cobra e assombrava as pessoas que ali viviam. Mas o que ele mais fazia era aparecer, de uma hora para outra, para uma jovem chamada Maria da Onça.

No Farol Velho, moravam quatro faroleiros que prestavam serviços náuticos. Teotônio era o mais velho e estava de serviço naquela noite, quando, de repente, apareceu um moço muito estranho pedindo que lhe mostrasse o serviço que é feito naquela área, no entanto, se mostrava sempre muito preocupado com o aproximar da noite que vinha chegando e, antes que escurecesse, mesmo no meio da conversa, ele ia embora, se retirava em direção ao Rio Arapepó. Com a amizade feita com os faroleiros, o moço passou a visitar frequentemente o farol até que, em uma dessas visitas, esqueceu do tempo em meio às conversas com os amigos e não percebeu que havia anoitecido, então saiu rodopiando escada abaixo, transformando-se em uma cobra grande, e os faroleiros, muito apavorados com o que estava acontecendo, saíram correndo dali. Após alguns dias, ele retornou como um cavaleiro, se explicando como sendo um encantado e pediu  ajuda a Teotônio para desfazer o encante. Tudo que este teria que fazer era  levar o rapaz até o mar e, no momento em que ele estivesse transformado em cobra, teria que cortar a cauda da serpente, mas Teotônio não teve coragem, e como o Trocatinho percebeu que não teria solução para acabar com o seu encanto, resolveu perturbar os moradores se transformando em cobra, cachorro, boi e até em pedaço de madeira, que poderia ser cortado por machado para perder o encanto, mas ficava boiando sobre as águas e acabava por bater nas embarcações.

Foram muitas as aparições de Trocatinho até que certo dia o farol foi tombado e condenado. Foram as altas ondas com as pesadas chuvas, provocadas por Trocatinho, que o derrubaram (ou seja, era a vingança de Manoel Torquato se concretizando).

Mais tarde, Manoel Torquato começou a procurar por Maria da Onça, pois ele não acreditava mais na coragem dos homens para desfazer o encantamento, principalmente naqueles que se achavam os mais valentões da área. A moça ficou encantada e acabou se apaixonando loucamente pelo moço. Foi então que ele aproveitou a ocasião para lhe pedir ajuda. Para que não ficasse mais sobre o efeito do encanto das profundezas do mar do Atalaia, pediu para ela que o ajudasse, pois isso faria com que ele levasse uma vida normal e, assim, poderiam se casar. A proposta seria a seguinte: ela teria enterrar uma faca sobre a cabeça dele no momento em que ele estivesse transformado em cobra

No começo, a moça teve coragem, mas depois voltou atrás e, na hora de poder ajudar, acabou voltando para casa. Ela teve coragem de tentar por duas vezes, mas na terceira a sua desistência foi total. Apesar das propostas e sugestões, a moça teve medo, foi aí que Manoel Torquato se irritou e, se transformando em uma cobra grande, começou a provocar ondas grandes em direção a Salinas, numa fúria louca e arrasadora contra a cidade, destruindo tudo o que tinha pela frente: Igreja, cemitério, comércios e ruas, afugentando moradores.

A cidade era exatamente onde, hoje, se encontram as ruínas ou amontoados de pedras, em frente ao hotel Salinópolis, na praia do Maçarico, e é por isso que até hoje o mar continua derrubando as margens próximas.

As pessoas antigas acreditam que o fato das erosões e as fortes marés, acompanhadas de intensas chuvas ainda sejam obras vingativas de Trocatinho. Os antigos sobreviventes da fúria de Trocatinho diziam que os encantados ainda vivem debaixo da cidade de Salinas, mesmo assim ainda não incomodam, mas, no dia em que os encantos de Trocatinho se perderem a cidade terá uma inundação total e desaparecerá do mapa.

PS: Na verdade, Trocatinho vem de Torquatinho, diminutivo de Torquato, mas devido a uma questão de eufonia, o povo chama Trocatinho.

REFERÊNCIAS:

CARDOSO, Eriston. Salinas do Pará

MARLY, Sylvia

Comentários

  1. Eu tenho uma linda história do trocadinho essa é real quando minha mãe tinha barraca no Atalaia só que moro distante pra contar

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